terça-feira, julho 31

Costuras





Passo entre passo entra no quarto.
Pé entre pé sente-lhe o cheiro.
O pó levanta do soalho imundo e o suor escorre-lhe no rosto. Afasta o cabelo dos olhos brutos, e aperta-me o pescoço.
Toda a sua vida esperou por algo que nunca chegou. Vinga no corpo o rancor dos homens, contorce a alma e rosna de orgulho. 
Dou-lhe o melhor de mim.
Condena-me pelos seus pecados e tira partido de alheia justiça que bate nas janelas, com o vento, com o vento que leva os gritos, os suspiros, as magoas.
Suspira, perde controlo. 
Ama-me. Odeia-me.
Deixa-se levar. 


Penetro-lhe os sonhos. 
E com  a ponta dos dedos ensino-lhe o caminho...
Em silencio grita e olha-me gélidamente nos olhos. 
Abandono-a... 
Segue-me e trás com ela os lençóis rasgados.
Ignoro a sua presença em jeito maquiavélico e ela, em silencio, implora a minha.
Aponto novamente o caminho, ela desvia-me o olhar, fito-a de frente. 


Coloco a minha mão sobre o seu peito. Olho-a nos olhos e sublinho a intenção.
Ela encosta um sabre no meu.
O coração acelera, faço um gesto, confirmo.
Ela chora, treme e esconde o rancor. 

Remendo-lhe o coração, cozo as promessas, ajeito as costuras.

Volta a olhar-me de frio.
Empurra-me contra a porta e encosta a cabeça sobre o meu peito.
Rasga-me a camisa e agarra-me com força.
Nega e receia aposteriori.
Dá-me um abraço apertado. 
Liberta-se do seu corpo.
Sorri.
Volta a abraçar-me.
Fecha os olhos, limpa as lágrimas.
Arrasta-me com ela para o jardim.
Está escuro. É Outono. 
Deita-se no chão, uma folha cai-lhe sobre o rosto, mas rapidamente o vento a leva.
Imóvel ela suspira.
Entrega-se a mim, com esperança nos olhos.
Chora de Amor e não de razão. 
Entrega-me o coração em mãos. 
Larga o sabre no chão, apunhala-me o destino.
Marca-me na sua história.
Leva-me no seu Futuro. 
Prende-me a  ela.
Fica o remendo duma paixão inadiável. 

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