terça-feira, maio 6



VII


Vejo a tristeza nos teus olhos quando não consegues fazer-me sorrir, quando não me enches de mimos, quando não me consegues dar o prazer que desejas, quando não tens tempo para nós, quando não sabes dar-me tudo aquilo que preciso, quando não temos o que desejamos e quando as ambições que desenhamos são inconcebíveis.
Mas não fiques triste. 
Hoje percebi que és a unica razão pela qual respiro.

Amo-te 



quinta-feira, maio 1

Pessoas más.

Dou por mim completamente afogado no pensamento.
Há dias em que nos perguntamos o que leva as pessoas a serem o que realmente são.
Porque é que o motorista do autocarro não esperou pela velhinha que vinha a fazer-lhe sinal do outro lado da rua? Porque é que as pessoas não sorriem? Porque é que não dizem obrigado quando lhes dás passagem e não pedem desculpa por terem chocado contra ti?
As pessoas não são más.
Estão atrasados para o trabalho.  Discutiram com alguém. Estão doentes. Morreu um familiar. Estão afogados em dividas. Alguém lhes partiu o coração.
Aceitamos o mal dos outros no mal que nos fazem e ainda sem perceber perdoamos de cabeça baixa e seguimos com o orgulho ferido.
Mas a verdade é que nem sempre o que dizemos condiz com o que conseguimos. Nem sempre é facil perdoar e seguir de cabeça baixa.
A verdade é que a duvida é o pior dos nossos arrependimentos, com o qual não sabemos viver e no qual não sabemos deixar de procurar respostas.
Porque?
Porque é que as pessoas são más?
Porque é que as pessoas procuram fazer-nos mal, quando não têm motivo que as conduza?
Talvez as pessoas sejam más.
Quando não há motivo não há consideração, como podemos nós perdoar algo sem entender?
A bíblia ensina-nos a faze-lo sem questionar, a vida ensina-nos a protegermos o couro do mal que tende a enxergar-nos as lagrimas.
Mas há pessoas más. Eu conheço pessoas más.
Sabem procurar-me, sabem encontrar-me e premeditam cada arranham que me deixam na alma.
Estudaram o meu passado, conhecem o meu Aquiles, atacam ventos repetidos na mesma direcção.
Não sou vitima do acaso.
Não esbarraram contra mim sem querer. Não é por estarem com pressa para o trabalho.
O pior é que eu sei.
O pior é que eu não sei.
Apenas são más .
Talvez não sejam apenas más.
Mas fizeram-me mal.
Sinto a insegurança, a falta de argumentos, a falta de confiança na pouca fluidez do discurso quando se defendem. Eles sabem que fizeram mal. Mas não deixam de o fazer, porquê? Porque são pessoas más?
Não há pessoas más.
Associaram a minha ausência a abandono? Deixaram de se rever no meu abraço? Mudaram as memórias das nossas conversas? Esqueceram-se do nosso dialeto especial?  Porque é que as pessoas que me sabiam ler nos olhos agora vêm mal neles?
Porque comecei a ser feliz?
Eu partilhara a minha felicidade com eles como sempre fiz...
Continuei a desvendar-lhes os meus segredos. Continuei a desejar-lhes o bem e a esperar as nossas gargalhadas no fim do dia, no caminho para casa.
Corremos em sentidos dispersos, julguei encontrá-los na meta.
Esperei por eles, juro que esperei.
Mas nunca esperei ver o que vi.
Ignorei enquanto pude.
Sabia que me iam fazer mal.
Tantas frustrações e inseguranças combinadas, tinham que ser depositadas em alguém.
Já os havia visto a fazer aquilo com outros... Já sabia do que eram capazes, ao que estavam acostumados...
Era de prever que me calharia a mim um dia.
Mas talvez não sejam  pessoas más...
Vou preferir pensar que são apenas pessoas que fizeram mal.
Guardar na memória as pessoas que um dia foram ou fingiram ser.
Secar as lágrimas que agora caem.
Reduzir os suspiros de tristeza ao saber noticias vossas...
Tirar o pensamento daqueles que tentam assombrar-lo....
Viver apenas.
Mas sempre com consciência que não há pessoas más.

Fica a esperança, para que os que se sigam aprendam com os que se foram e se juntem aos que ficaram, com um sorriso. 

segunda-feira, março 24

Estar apaixonado é do mais complexo e ingrato que já imaginara.
Encho o meu rosto de sorrisos e lágrimas mas perco por entre os sonhos e mil desejos as palavras e frases bonitas que gostava de declamar.
Perco-me no silencio de um ou outro olhar. Um reparo suave na curva do teu sorriso, ou nas tuas bochechas doces, ou no teu corpo de menina mulher do qual perco o rasto quando dança para mim, ou em mim. Descontrolas-me o pensamento, o corpo também.
É por isso que gosto de ti. O pacote completo, de vontade inesgotável e coração banhado de esperança e cor.
Alegras-me os dias tristes, e os felizes também.  E quando não o são, alegro-me por saber que me cabe a mim pinta-los com a nossa cumplicidade e estupides.
Tocas-me o coração, tocas-me o corpo, tocas-me a alma.
E espero que toques o meu futuro, que faças dele teu.
Para que possa adormecer ao teu lado, em vez de sonhar contigo.

Fica a confusão, confusa mas feliz.

quinta-feira, janeiro 30

O que distingue um Amigo Verdadeiro

"Não se pode ter muitos amigos. Mesmo que se queira, mesmo que se conheçam pessoas de quem apetece ser amiga, não se pode ter muitos amigos. Ou melhor: nunca se pode ser bom amigo de muitas pessoas. Ou melhor: amigo. A preocupação da alma e a ocupação do espaço, o tempo que se pode passar e a atenção que se pode dar — todas estas coisas são finitas e têm de ser partilhadas. Não chegam para mais de um, dois, três, quatro, cinco amigos. É preciso saber partilhar o que temos com eles e não se pode dividir uma coisa já de si pequena (nós) por muitas pessoas.

Os amigos, como acontece com os amantes, também têm de ser escolhidos. Pode custar-nos não ter tempo nem vida para se ser amigo de alguém de quem se gosta, mas esse é um dos custos da amizade. O que é bom sai caro. A tendência automática é para ter um máximo de amigos ou mesmo ser amigo de toda a gente. Trata-se de uma espécie de promiscuidade, para não dizer a pior. Não se pode ser amigo de todas as pessoas de que se gosta. Às vezes, para se ser amigo de alguém, chega a ser preciso ser-se inimigo de quem se gosta.

Em Portugal, a amizade leva-se a sério e pratica-se bem. É uma coisa à qual se dedica tempo, nervosismo, exaltação. A amizade é vista, e é verdade, como o único sentimento indispensável. No entanto, existe uma mentalidade Speedy González, toda «Hey gringo, my friend», que vê em cada ser humano um «amigo». Todos conhecemos o género — é o «gajo porreiro», que se «dá bem com toda a gente». E o «amigalhaço». E tem, naturalmente, dezenas de amigos e de amigas, centenas de amiguinhos, camaradas, compinchas, cúmplices, correligionários, colegas e outras coisas começadas por c. 

Os amigalhaços são mais detestáveis que os piores inimigos. Os nossos inimigos, ao menos, não nos traem. Odeiam-nos lealmente. Mas um amigalhaço, que é amigo de muitos pares de inimigos e passa o tempo a tentar conciliar posições e personalidades irreconciliáveis, é sempre um traidor. Para mais, pífio e arrependido. Para se ser um bom amigo, têm de herdar-se, de coração inteiro, os amigos e os inimigos da outra pessoa. E fácil estar sempre do lado de quem se julga ter razão. O que distingue um amigo verdadeiro é ser capaz de estar ao nosso lado quando nós não temos razão. O amigalhaço, em contrapartida, é o modelo mais mole e vira-casacas da moderação. Diz: «Eu sou muito amigo dele, mas tenho de reconhecer que ele é um sacana.» Como se pode ser amigo de um sacana? Os amigos são, por definição, as melhores pessoas do mundo, as mais interessantes e as mais geniais. Os amigos não podem ser maus. A lealdade é a qualidade mais importante de uma amizade. E claro que é difícil ser inteiramente leal, mas tem de se ser. "

Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas'